Relembrar

Pensar em escrever sobre o que já passou, contém alguns desafios: relembrar de tudo e fazer pessoas queridas voltarem no tempo, mexer com sentimentos que estavam adormecidos e, além disso, surpreender a alguns conhecidos que por, incrível que pareça, não sabiam que tive câncer.

Fiquei bastante surpresa com a repercussão do blog, pois de imediato comecei a receber inúmeras mensagens de amigos, conhecidos e, para minha felicidade, mensagens de pessoas que ainda não tenho contato. Não as conheço por um lado, mas muitas das vezes abro suas fotos e logo vejo que algumas delas ainda estão em tratamento e então sinto que de alguma forma estamos ligadas.

Pelo números de acessos, sei que outros estavam lendo, mas quando recebo essas mensagens carinhosas, fico muito emocionada.

Automaticamente abro um sorriso, muitas vezes em meio a lágrimas, pois me mostra que tudo está valendo a pena.

Relembrar de tudo às vezes dói, mas nada comparado à sensação de felicidade em saber que estamos conseguindo aqui, passar a mensagem que existe sim um pós doença. Quando passamos por algum momento difícil, estamos tão concentrados vivendo aquilo e absorvendo ao máximo aquela realidade que, se torna difícil visualizar o “depois”.

Estou, de fato, muito realizada fazendo o blog. Descobri que apesar dos desafios iniciais, falar sobre tudo está me fazendo um bem danado e até percebi que lembro desse período com um certo carinho, pois recebi tanto amor que hoje me sinto uma pessoa especial.

Seja qual for a razão do nosso sofrimento, saibam que ele acaba. Em algum momento ele acaba!

Enquanto estiverem passando por ele, tratem de reparar em cada detalhe positivo que está acontecendo. Cada bênção que você está recebendo precisa ser notada e agradecida para outras virem.

Tenho muitas memórias para contar junto ao Caio, nossas famílias, amigos e pessoas que tenham uma história de superação.
Vamos abrir espaço para todas elas, assim vocês podem acompanhar sob a perspectiva de cada um e, de alguma forma, se identificar com elas.

Quando contar sobre meu processo, também não devo faze-lo de forma cronológica, pois espero “sentir” para as palavras começarem a surgir e nesse momento deixo que o sentimento fale por si e escolha, ele próprio, o assunto do próximo post.

Saibam que tudo está sendo feito com muito carinho e cuidado.

Passo muito tempo do meu dia lembrando deste projeto e com a alma aquecida, pois sei que graças a vocês estas mensagens estão chegando a outros lugares e outras pessoas. Muito obrigada!

Obrigada, por que agora tudo passou a fazer sentido.ULJ_LogoReduzida_whiteBG

 

Ps: se quiser comentar, basta clicar no título do post. Abrirá uma janela com o campo de comentários abaixo 😊

Gostou? Então compartilhe!

Virando o Jogo


Sábado passado fui assistir ao jogo do CRPP, Clube de Regatas Pés de Pano, time de futebol dos meus amigos do colégio. Há um campeonato de ex-alunos que eles participam e vou lá algumas vezes pra torcer e, claro, encontra-los também.

Trata-se de uma confraternização pois podemos rever amigos que se formaram em vários anos diferentes, mas se tratando do esporte mais popular do país, rivalidade sempre está em jogo.

Cheguei uns 20 minutos antes de começar, fui cumprimentando quem estava e aos poucos os jogadores iam chegando. Nesse dia o time ia jogar quase completo, contando com os titulares e ainda 4 reservas.

O campeonato acontece durante o ano todo, sendo mais de 30 times, por isso é bem disputado e realmente difícil de ganhar.

O juíz apitou e a bola começou a rolar. O time estava bem coeso, dominando o jogo e pressionando o adversário. Porém, em um belo chute o oponente abriu o placar.

O jogo seguiu essa dinâmica, mas outras 2 boas jogadas deles fizeram o placar ficar realmente muito adverso. Fim do 1º tempo: 3×0. Isso mesmo, 3×0 pra eles.

Nós (torcida sempre se inclui né?) fomos então para o intervalo. Um momento MUITO importante pois serve para analisar o que está acontecendo e se preparar a próxima etapa. Começamos a nos incentivar, sabíamos do nosso potencial, que estávamos jogando bem e que, por detalhes, não havíamos feito um gol.

Pra ser sincero, tivemos como objetivo empatar, sabendo que uma reação rápida seria fundamental para isso.

Times em campo, começou o 2º tempo. Logo no início fomos pressionando até que acertamos um chute de longe, golaço! Ali, naquele momento, sentimos ainda mais que era possível.

Poucos minutos depois veio o 2º e então o 3º. Sim, o jogo estava empatado antes da metade do 2º tempo!

Agora o empate já era realidade e a vitória algo ainda mais próximo. Mais uma jogada bem trabalhada e o momento da virada chegou. Antes do fim ainda ampliamos o placar: 5×3 de virada. Um resultado espetacular, motivador para as próximas rodadas e com certeza conteúdo pra muita história.

Tiramos a tradicional “selfie da vitória” e fomos comemorar no bar que fica no clube. Muito mais que vencer, acreditamos no sucesso e fomos firmes rumo a ele. Momento memorável!

CRPP e a "selfie da vitória"
CRPP e a “selfie da vitória”

Esse jogo pra mim foi uma inspiração. Cheguei em casa completamente rouco de tanto gritar incentivando e depois comemorando.

Algumas horas depois, eu estava lavando louça quando me veio um estalo e parei pra pensar o que tinha acontecido ali. Percebi que a vida em muitas situações é assim, nos dá um cenário de 3×0 pro adversário e só um segundo tempo pra recuperar.

Durante o período da doença, teve choro, medo, notícias ruins e referências que não foram bem sucedidas. Tudo isso podia deixar nosso time (Linda, eu e os que estavam a nossa volta) cabisbaixos e continuar da mesma forma, quase que aceitando uma derrota.

Mas pra virada acontecer é importante o time estar unido, reservas atentos e prontos pra ajudar, torcida vibrando não importa o placar e um sentimento de que é possível.

Família, amigos, colegas, todos podemos ser parte desse momento. De perto, de longe ou atuando mais efetivamente, tudo tem seu valor.

Há uma letra do Rappa que diz que “a fé na vitória tem que ser inabalável”. E é assim que ela deve ser. Além da mensagem, a música também é excelente, por isso a deixo aqui.

Ps: se quiser comentar, basta clicar no título do post. Abrirá uma janela com o campo de comentários abaixo 😊

Gostou? Então compartilhe!

Quarto de hospital

Quando me internei num domingo fui preparada com minha mala de mão e nela alguns livros, uma bíblia, um pijama azul quentinho que a avó do Caio tinha me dado e coragem, muita coragem.

Fiz a papelada junto a minha família e logo fui encaminhada para o quarto que seria compartilhado com mais 5 pacientes. Andando naqueles corredores o hospital parecia tão grande, pouco cuidado, mas as pessoas que encontrei ali foram pessoas sábias, de fé e cheias de amor.

Fiquei numa cama perto da janela. Estávamos no inverno e, apesar de estarmos no Rio de Janeiro, fazia muito frio. Minha mãe logo deixou minha cama o mais aconchegante possível, com a colcha e travesseiro que havíamos levado.

Eles tiveram que ir embora ao anoitecer e eu logo pusera meu pijama azul de plush e deitei o mais aquecida que pude.
Ao meu lado uma senhora rezava alto e às vezes entoava algum cântico evangélico que me trazia paz. Ao outro lado, perto da porta, uma jovem loira com um sorriso enorme era muito gentil e oferecia o que tivesse de “passa tempo” para nos distrair também. Perguntava se queríamos usar seu laptop ou comer um pedaço de biscoito. Gostei dela logo de cara.

Ainda uso meu pijama "fofinho"
Ainda uso meu pijama “fofinho”

Naquela noite recebi em meu celular muitas mensagens e ligações de pessoas queridas. Sabia que no dia seguinte teria que ser preparada para a cirurgia às 6 da manhã e então tratei logo de dormir.

Fechei os olhos e orei. Orei por mim, pelos médicos que fazem um trabalho maravilhoso, orei para que minha mãe recebesse paz naquela noite, mas também orei pelas minhas companheiras de quarto. Pedi cura, saúde e uma vida mais leve pra cada uma delas.

Pensei em suas famílias e me perguntei de como seriam suas vidas, quais seriam suas histórias e, sem perceber, adormeci.

Conhecê-las foi umas das bênçãos que tive, pois encontrei pessoas especiais, solidárias e que faziam daquele quarto um lugar um pouco mais humanizado e confortável do que ele realmente era.

Nos dias seguintes, quando os médicos residentes vinham me ver e trocar meu curativo, aquela moça loira de sorriso largo sempre se aproximava e vinha conversar comigo. A Franciane, como se chamava, me dizia que a cirurgia tinha ficado ótima e que a cicatriz parecia estar bem fina.

Deitada, eu não conseguia visualizar direito, então confiava em seus olhos e suas palavras.

A Fran, também estava ali para uma cirurgia por um câncer de mama e por isto acabamos nos aproximando mais, nós e nossas famílias.

Não importa onde você esteja, por menor que sejam as estruturas naquele momento trate de fazer dali um lugar acolhedor (por mais difícil que isso pareça).

Quando tenho que voltar lá para minhas consultas de rotina ou simplesmente quando passo em frente, olho pra esse hospital enorme e sempre me pego sorrindo. Podia lembrar de momentos tristes ou de todo o processo que passei, mas de alguma forma é como se ele me abençoasse.

É um hospital grande, com dificuldades estruturais e pouco bonito, mas de alguma forma ele me acolheu. Foi ali que me curei, como não lembrar e sorrir?

 

Ps: se quiser comentar, basta clicar no título do post. Abrirá uma janela com o campo de comentários abaixo 🙂

Gostou? Então compartilhe!