Vejo um sorriso no céu :)

Chegando no hospital passei pelo médico que checou os exames de imunidade. Tudo certo! Vamos para minha segunda quimio vermelha 💪🏻

O líquido começou a fazer seu caminho no meu corpo e eu pude ler algumas páginas do livro que havia levado. Fiquei com vontade de ir ao banheiro, o que é normal pela mistura do medicamento com o soro. A coloração da urina era um pouco avermelhada, mas já estava familiarizada. Voltei a minha poltrona e decidi ouvir um pouco de música. Fechei os olhos e me permiti relaxar.

Alguns pensamentos começaram a vir e logo me perguntei pela Fran, minha amiga do sorriso largo, que tinha conhecido no quarto antes da cirurgia. Teoricamente estaríamos fazendo a mesma sequência e era para nos encontrarmos, assim como na primeira dose.

Interrompi a música e liguei para a Letícia, sua irmã que me informou que ela não teria reagido muito bem e estava internada no oitavo andar. Desliguei! Minha vontade foi de tirar o acesso da minha veia subir para ver minha amiga. Me contive e voltei a ouvir música, mas agora meu pensamento era um só, precisava vê-la.

Quando a enfermeira me liberou, pedi à minha mãe que subíssemos, expliquei e ela de imediato assentiu. Chegando encontrei sua família linda e ela com um sorriso enorme, aquele sorriso tão característico dela e de seus familiares. Conversamos, tiramos foto, fizemos um cartaz e colamos perto de sua cama, rimos, mas eu precisava ir. Já podia sentir os efeitos chegando e sabia que começaria a passar mal nos próximos minutos.

Como vocês bem sabem, meus próximos cinco dias foram lutando contra os sintomas. Parecia uma boneca de trapo, sem forças, mas lutando. A Fran continuava internada e mesmo quando eu não conseguia falar, pedia a minha mãe que ligasse para saber.

Quando melhorei, depois de alguns dias, precisava fazer exame de sangue para verificar minha imunidade para a próxima quimio. Desta vez, apesar do caminho ser longo, fiquei feliz porque conseguiria fazer uma visita a Franciane. Entrei, junto ao meu pai e, a vi dormindo. Recebi o abraço gostoso de sua mãe e percebi que ela acordou. Estava fraca, cansada, mas me reconheceu. Como pôde esboçou um sorriso e eu agarrei sua mão.

Fiz uma oração silenciosa e falei em seu ouvido que logo ficaria tudo bem. Fiz carinho em seu rosto e naquele momento me senti inútil, pequena, impotente! Queria poder fazer alguma coisa!

Saímos de lá e enquanto andávamos pelos corredores do hospital, meu pai me puxou e me deu um abraço forte. Ficamos assim, abraçados por longos minutos. Nenhum de nós falou nada, estávamos confusos e milhões de sentimentos nos envolviam.

Os dias se passaram e, de novo, tudo estava diferente, apesar disto precisava encarar o tratamento e ir para minha terceira sessão de quimioterapia, desta vez a última vermelha.

Durante algumas horas recebendo a medicação me entretive com algumas revistas, quando vejo uma mensagem nova no meu celular. Queria que aquilo fosse um pesadelo! Não podia ser verdade!

Reli algumas vezes e não conseguia segurar as lágrimas…minha amiga tinha falecido.

Não pude estar com a família nesse momento, por que já estava passando mal. O pior de tudo que ainda me restariam 5 dias de fraqueza. Fiquei com raiva!! Queria me despedir, queria abraçar sua mãe, sua irmã, seu pai…

Foram dias difíceis, dias cinza e de dor, mas me fizeram mais forte. Estava brava, estava revoltada, com muita raiva dessa maldita doença. Resolvi me vingar! Agora seria uma questão de honra, não seria só por mim, seria também pela Fran!!

“Minha amiga querida de sorriso iluminado, como queria que tudo tivesse sido diferente.
Como queria ter superpoderes, voltar no tempo e te curar.
Sei que você é um anjo que tenho, sei que foi o melhor.
Deus sabe de tudo e te deu conforto, chega de dor e sofrimento!
Às vezes olho pro céu e posso ver o seu sorriso.
Prometi, sempre que contar minha história, contar a sua junto.
Estou fazendo isso! Estou falando de você, pois você me ensinou muito, me ensinou sobre amor, sobre força, sobre paz.
Que minha mensagem chegue a até você como uma brisa leve e que nela possa sentir minha gratidão.
Obrigada Fran!”

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Mais uma é menos uma

O taxi avançava e eu olhando pela janela reparava nas pessoas na rua. Pra onde será que estão indo? Como será a vida delas?

Eu, dentro daquele carro estava com medo, com frio na barriga e quanto mais nos aproximávamos do nosso destino eu sabia que já não conseguiria me livrar daquilo. Na verdade, depois de tudo, escapar não era mais uma opção, não estava de acordo aos meus princípios e à minha criação. Fui preparada para enfrentar medos e ultrapassar limites. Todos nós fomos! O ser humano tem uma capacidade enorme de se reinventar e se adaptar às mais diversas situações.

Apesar de só de lembrar daquele líquido vermelho me dar enjoo, bem ou mal me sentia mais preparada, pois sabia o que estava por vir. Os sintomas apareceriam e já estaria familiarizada com eles. Saberia como proceder e como me alimentar.

De qualquer modo, aquela sessão seria diferente, ao contrário da primeira, agora entraria naquele hospital sem cabelos e mais parecida com os outros pacientes daquele andar.

Pensei se estariam os mesmo enfermeiros que da vez passada e me perguntei como seria pra eles acompanhar essa “transformação” de cada paciente.

Coloquei minha peruca, me maquiei e vesti uma roupa bonita e confortável. Providenciei um aparelho com músicas e levei um livro. Aquelas duas horas passariam mais rápido desta vez.

Tinha cuidado muito bem da minha veia, do jeito como haviam recomendado. Havia colocado uma bolsa de gelo e feito exercício com uma bolinha, onde precisava apertar e soltar, apertar e soltar e, de repente, tinha ficado muito regrada nisso. Sabia que usariam um braço só durante todo o tratamento e não queria dificuldades em colocar o acesso. Percebi que o roxo na minha pele, após a primeira quimio, tinha saído rápido, então continuei passando gelo e apertando aquela bola.

Continuava olhando pela janela do carro e em alguns momentos observava minha mãe. Seu rosto parecia cansado. Apesar de um pouco nervosa queria passar logo pelas 6 doses, faltavam 5 e depois desse dia somente 4.

Já estávamos chegando e só conseguia pensar que mais uma é menos uma…

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Amor, câncer e sexo

Lembro que quando descobri a doença, num momento a sós com o Caio, expliquei que o amava tanto, mas tanto que gostaria de que ele não passasse esse período turbulento comigo. Ele obviamente ignorou a mensagem, pois ele fazia questão de passar essa fase junto a mim. Seu apoio seria incondicional e no fundo eu sabia disso.

O comportamento dele desde o início até o final do tratamento sempre foi o mesmo. O seu amor não oscilou nunca!

Quando operei a mama o seu desejo por mim continuava. Me procurava mesmo na fase de pós operatório. Acordava de madrugada com ele me beijando e podia notar o quanto me queria.

Durante a quimio e já careca nada tinha mudado. Apesar de tudo estar diferente, quando estávamos ali, só nós dois… Éramos os mesmos! Isso pra mim foi super importante, pois eu podia “ser eu” e o melhor, me sentir “eu mesma”.

Mesmo estando debilitada com os sintomas do tratamento ele estava ali sempre me olhando com vontade e às vezes a negativa partia de mim, apenas pelo fato de sentir o mal estar do remédio. Quando após do quinto dia já me sentia melhor, nossa vida sexual voltava ao normal e melhor ainda. Éramos um só, envolvidos em tanto amor que nesse momento ter um seio só, não te-lo, ter metade ou estar sem cabelo, seria um mero detalhe.

Modéstia parte, também, nunca deixei a “peteca cair”. Sempre me senti bonita e continuava provocando-o quando ele menos imaginava. O fator fundamental que fez toda diferença e que hoje posso analisar de melhor forma, mas que na época acontecia de forma inconsciente, foi o fato de gostar muito de mim, “eu” me amar muito e por consequência você fica mais interessante aos olhos dos outros.

Você se amar faz você se cuidar e isso é saúde também!!

No meu caso eu tinha um companheiro, mas se ele não estivesse eu continuaria me redescobrindo e reiventando, afinal de contas o corpo e vida são meus, precisaria cuidar de mim independente de quem está do meu lado.

A vida é tão maravilhosa e nós estamos inseridos num cenário tão maior que é a grandeza da natureza que seria desrespeitoso eu não me amar.

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