Um ano novo especial

Ano novo chegando e me traz à memória o meu final de ano durante o tratamento.

O Caio realiza quase todos os anos uma festa de réveillon em Búzios e naquele não seria diferente. Conversamos com o médico e fui autorizada a ir. Precisava voltar em tempo da minha última quimio que aconteceria dia 09 de Janeiro.

Geralmente eles alugam uma casa grande e nos dividimos pelos cômodos. Seria um grande desafio, pois estaria com mais de 10 pessoas ali, convivendo com elas e encarando a rotina de alguns dias. Mesmo a maioria sabendo que tinha passado por um câncer, eles somente me viam de peruca, lenço, arrumada e acho que assim a realidade fica um pouco mais amena. Mas desta vez veriam as consequências da doença nua e crua.

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A reação foi a melhor possível, assim que chegamos informei que no meu celular estaria o número do meu médico, assim qualquer um poderia entrar em contato em caso de emergência. Me senti super à vontade o tempo todo. Acordávamos juntos, ajudava no café da manhã, íamos à praia, cozinhava, passava a tarde com eles, passeávamos a noite. Dentro de casa a careca era assumida, mas para a praia precisava de muita proteção, então colocava um lenço e por cima um belo chapéu. A peruca era super bem vinda de noite, assim passava despercebida pela Rua das Pedras.

No dia 30, despretensiosamente fomos ao Chez Michou, creperia onde acontece uma certa badalação, pois um lounge com dj faz toda diferença. Conseguimos depois de alguns minutos um lugar disputado, ficava mais no alto, com puffs e sofás e uma vista privilegiada de tudo o que estava acontecendo ali. Meu irmão havia chegado do Chile e eu estava feliz que passaria a virado junto a ele.

Não sei se o dj identificou nosso ar latino, mas quando ele botou o primeiro reggaeton nós fomos à loucura e não parávamos de cantar e pular. Muitos dos nossos amigos já familiarizados com a música acompanharam esse momento e logo estavam todos olhando para nós. Todos na creperia começaram a nos acompanhar enquanto acenavam. Conseguimos contagiar o público todo do local e em poucos instantes estavam todos numa euforia máxima e eu me perguntava o que estava acontecendo ali!? Como aquilo tinha começado!?

Lembro de pessoas dançando em cima das mesas, dos garçons entrando no clima e se divertindo, o Chez Michou inteiro pulando ao som das melhores músicas e o Dj mandando um “alô” pra “galera do toldo” (referência ao local que estávamos).

Lembro de pular tanto, mas tanto que secretamente pensava que em qualquer momento minha peruca iria cair. 😂

Fizemos a festa ali, acho que aquele dia foi o nosso réveillon, saímos de lá às 06h da manhã e ainda não acreditávamos na alegria que tínhamos deixado ao ponto de contagiar a todos. Dormimos até tarde, precisávamos nos recuperar para o ano novo.

A noite do dia 31 foi maravilhosa também, encontrei algumas pessoas conhecidas, abracei, conversei e nem lembrava que estava de peruca. Nem lembrava que tinha tido câncer, nem lembrava que há uma semana tinha estado no hospital recebendo quimioterapia. Agradeci, pois estava quase sem sintomas e consegui aproveitar cada momento.

Aquele ano estava indo embora e tinha esperança de retomar minha vida no ano que estava entrando. Só faltava uma quimio! Estava feliz!

As pessoas que dividimos a casa, nossos amigos, foram fundamentais para me trazer conforto e me fazerem esquecer que estava doente. Tenho encontrado pessoas especiais onde quer que vá e esse texto é pra agradecer a cada uma, e em especial para a “galera do toldo”. ❤

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Como foi o seu Natal?

Depois de tudo, o Natal para gente com certeza tem outro significado. Queremos somente uma noite tranquila junto aos que amamos. Infelizmente como a maior parte da minha família está no Chile, sempre passo com minha mãe. Ela e eu.

Sempre ficamos com aquela sensação de que algo falta ser preenchido. Passamos muito tempo no celular tratando de falar com cada ser querido que está longe. O celular se torna a extensão da nossa ceia e com ele conseguimos preencher algo daquela falta. Ficamos conectados com irmãos, tios, sobrinhos, amigos e assim conseguimos saber quem já recebeu seus presentes, o que havia de especial no jantar deles, e o melhor, conseguimos enviar via vídeo os nossos melhores desejos.

Embora falte esse tipo de companhia tão típica nesta época, onde todos se reunem, no fundo sabemos que temos tudo o que precisamos. Temos paz!

Nessas datas, ocorre uma concentração muito grande de amor e generosidade. As pessoas se compadecem mais e isso é bonito de se ver. É bonito de fazer. Parece que se revela o melhor de nós e sempre torço para nos acostumarmos com esse perfil e que continuemos solidários no restante do ano ou que, ao menos, vejamos tudo com outros olhos. Com bons olhos.

Que mesmo sozinho, numa noite dessa, com poucas pessoas ou em grandes encontros, a ceia possa ser um símbolo de harmonia, de renovação e de reconstrução. Que nos perdoemos a nós mesmos, que nos demos outra chance, que abracemos mais, beijemos mais, agradeçamos mais e que entendamos que num simples bom dia, boa tarde, feliz Natal ou Feliz final de ano, carregamos um poder enorme de fazer o dia do outro mais leve e feliz.

Poder fazer parte do sorriso do outro é incrível. Faça um teste 😉

Feliz Natal a todos e que o vento leve até vocês o meu carinho e amor.

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Tá faltando quimio

Depois de ter feito a terceira quimioterapia “vermelha”, fiquei um pouco aliviada. Agora viriam 3 ciclos da “branca” e pelo menos os sintomas seriam outros. Não vou mentir aqui e dizer que passou rápido. Demorou tanto que cada dia parecia interminável. Mas finalmente estava em outra etapa. Chega de enjoos e mal estar, agora teria que encarar dores no corpo e falta do paladar (teria dificuldade em sentir sabores).

Ao chegar no hospital passamos pela tradicional consulta antes, para ver o resultado dos meus exames e verificar minha imunidade. Tudo estava normal, então fui encaminhada para a sala de espera da quimio, já que precisava esperar a manipulação do remédio pela farmácia.

Percebi que estava demorando mais do que o normal. O que teria acontecido? Minha mãe, o Caio e eu estávamos ficando impacientes e preocupados. Tomei coragem e entrei na sala, vi alguns pacientes em suas poltronas recebendo o medicamento e em seguida me dirigi à mesa da enfermeira chefe.

Enquanto ela começou a me explicar, senti algumas lágrimas caírem, tentei segura-las, mas era incontrolável. Ela me mostrou num canto da mesa, uma pilha de prontuários de pacientes que aguardavam pelo mesmo medicamento que eu. Estavam na espera, pois há alguns meses o remédio estava em falta no hospital.

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Parecia um pesadelo! Retomar o tratamento num hospital particular poderia sair muito caro, fora isso, precisaria de um médico para dar sequência. O nó em minha garganta não se desfazia apesar de já estar em prantos.

O rosto de minha mãe parece que tinha afundado e o susto era notório em seus olhos. O Caio me observava com o seu olhar aumentado e depois soube que ele, naquele momento, estava pensando em mil possibilidades para obter uma solução.

O que faríamos agora? E aquelas pessoas há quantos meses estariam esperando? Olhar para cada prontuário ali me fez chorar mais. O hospital não tinha um remédio que nos ajudaria a salvar nossas vidas, não era uma simples aspirina em falta. Pedi a Deus em silêncio uma saída. Quando estávamos quase no corredor, vejo o médico num jaleco branco, correndo em nossa direção.

Ele tinha sido informado e foi imediatamente nos procurar, pois para o tipo de tumor que eu tinha, para o meu caso específico, existia uma alternativa. Um pouco mais calmos já em sua sala, sentamos e ficamos atentos a cada palavra. Não sou médica, nem especialista, então vou resumir de acordo com as minhas impressões quais seriam as mudanças.

Ao invés de fazer uma sequência de 3 doses de quimio, com intervalos de 21 em 21 dias, faria 12 sessões semanais. Ao que parece esta era uma pouco mais leve, por isso o intervalo era menor e a quantidade de vezes maior. No final das contas o resultado seria tão efetivo quanto da outra.

Ficamos um pouco temerosos quanto à eficácia, mas logo confirmamos com o Doutor Augusto que, em sua opinião, disse que esta seria até melhor do que a outra. Confesso que de início não percebi a grande benção que tinha recebido. Fiquei um pouco brava. Minha contagem dizia que só faltavam 3 e isso era um alento. Agora teria que que contar 12 e ainda demoraria mais 1 mês para finalizar e então partir para a radio.

Além disso, reclamei pela minha veia. Seria agredida mais vezes e teria menos tempo para cuidar dela. Naquele momento não fui capaz de agradecer. Depois de assimilar e finalmente receber a quimio nova, que também era branca, fiz questão de ir à ouvidoria do hospital e fazer uma reclamação formal, principalmente em nome de todos os outros pacientes que ainda
estavam aguardando.

No caminho de volta, em pensamentos, tentei me redimir. Tinha sido tola! Agradeci tanto depois e agradeço até hoje. Tive sorte mais uma vez. Neste caso, demorei um pouquinho para reconhecer as coisas boas que o universo manda, que bom que logo percebi diante dos meus olhos outra solução que a vida estava me enviando.

Na verdade, foi a melhor coisa que aconteceu. Os efeitos foram quase nulos e tive cuidados intensivos com a veia. Realmente não sentia tanto os sabores dos alimentos, mas isso era o de menos. Estava tendo acesso ao tratamento e isso já era maravilhoso demais.

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