Ficando careca – Parte II

Leia a parte 1 desse texto aqui

Acordei no dia seguinte ao lado do meu grande amor. Olhei seu rosto ainda dormindo e notei alguns fios de cabelos soltos em volta dele. Tínhamos chegado tarde daquela festa, por isso ainda não havíamos levantado. Fui ao banheiro onde pude olhar meu rosto, quando meus olhos pausaram no buraco em minha cabeça. Ainda dava para disfarçar, mas a verdade é que eu outrora com tanto volume, já estava com o cabelo cada vez mais ralo.

Separei minha peruca e a guardei dentro de sua caixa. Sabia que não podia passar daquele dia. Sabia que a hora tinha chegado e assim como já havia mudado por dentro e me tornado outra, precisava seguir em frente com essa mudança externa.

Quando o Caio acordou começamos a pesquisar alguns cabeleireiros que conhecíamos e de outros que tínhamos recebido indicação. Como era domingo, quase nenhum estava aberto. Finalmente um disse que poderia nos atender. Expliquei qual seria o procedimento e pedi um lugar mais privativo para me despedir dos fios.

Não sabia qual seria a minha reação, mas apesar de novamente não ter assimilado aquele momento e me sentir forte, a verdade era que não queria que as outras pessoas ficassem olhando enquanto ele cortava.

Entramos no salão e eu segurava a caixinha com minha querida aliada, enquanto ele nos encaminhava para o segundo piso. Chegamos numa sala improvisada onde haviam colocado uma cadeira em frente a um grande espelho. Apoiei a peruca perto e pedi pra que ele começasse. O Caio estava sentado num banco atrás de mim e conseguia vê-lo completamente pelo reflexo. Quando ele ligou a máquina o barulho não me assustou, mas percebi que de fato não podia mudar o que estava prestes a acontecer.

Quando o aparelho deslizou e percorreu meu couro cabeludo, vi aquela fileira toda caindo, e na altura da orelha, agora havia um rastro branco. Tudo bem!

Continuou algumas vezes, percebi que estava com um lado completamente raspado e ouvi o Caio falar para depois fazer esse corte, pois estava muito estilosa. Disse que parecia aquelas modelos com cortes modernos. Ri um pouco e concordei.

Os fios agora formavam um bloco grande no chão. Faltava pouco!

Decidi olhar para o Caio pelo espelho, ele continuava prestando atenção na minha cabeça e com seu olhar iluminado repetia incansavelmente que eu estava linda. Seu rosto era sereno e enquanto suas palavras faziam eco na minha alma…
“você está linda, sério! Você está muito linda!”

Comecei a chorar e a derramar grandes gotas. Toquei minha cabeça, pois ele tinha acabado e não conseguia parar de chorar. As lágrimas vinham com tanta facilidade e minha imagem não parava de ser refletida na minha frente. Olhar para mim naquele momento foi enxergar a minha alma, foi me ver por completo. Foi explorar lugares e emoções nunca visitados antes. Foi o momento em que me senti humilhada pela doença.

Apesar de tudo isso, sei que em grande parte o motivo da minha comoção foi pelo Caio. Ver seu rosto em paz, me apoiando, me achando linda e acima de tudo, trazendo naquele momento um tipo de amor que é raro de presenciar, aquele que de tão sublime se torna uma experiência sobrenatural, divina e que tem tanta força que se sobrepôs ao primeiro motivo. Agora eu chorava de amor e gratidão. Fui beijada inúmeras vezes e logo aprendi a encaixar a peruca. Estava bem com ela.

Voltando para casa tirei uma foto e enviei para meu irmão que estava no Chile. Minha mãe não estava, chegaria no dia seguinte e no telefone não parava de perguntar cada detalhe. Estava preocupada, mas me sentia bem. Tinha avisado pouco tempo antes a ela que rasparia naquele dia. Expliquei que vê-la sofrer me faria mal e não queria que esse momento fosse um drama maior. Esclareci que faria junto ao Caio, assim ela só me veria quando já estivesse finalizado.

Não sei se sua dor foi menor, mas quando ela chegou em casa correu até me achar no quarto. Não parou de me abraçar e beijar minha carequinha até eu quase perder o ar. Acho que seu coração deve ter quebrado em alguns pedaços nesse momento, mas ela se segurou.

Estávamos juntos levantando a cabeça e seguindo em frente, tínhamos um objetivo e estávamos focados nisso. Tínhamos que vencer !!

Eu, pronta pra vencer.
A foto enviada para meu irmão

 

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Ficando careca – Parte I

Após os sintomas mais agressivos da quimio irem passando, notei que alguns fios continuavam no travesseiro ao levantar. Quando penteava o cabelo uma quantidade grande ficava na escova. Na medida que os dias avançavam eles se multiplicavam, eu me mexia e eles escorregavam para o chão, de repente a casa precisava ser varrida constantemente. Almoçar era desconfortável porque eles voavam para dentro do prato, então optei por corta-los chanel.

Fui sozinha, busquei um salão caro e expliquei meu problema ao cabeleireiro. Ele ficou um pouco nervoso e com pena. Na hora de lavar comentou que, de fato, eles estavam caindo muito. Fiquei uma semana aproveitando meu novo corte quando decidi acompanhar o Caio numa festa, ele é produtor de eventos e organizava nesse dia uma grande festa. Precisava encontrar com ele lá, então fui tomar banho, pois já havia separado minha roupa nova para colocar.

Entrei na ducha e fechei os olhos por um longo tempo, passei shampoo e novamente deixei a água escorrer no meu rosto. Fiquei assim durante alguns minutos e logo comecei a sentir algo deslizando pelo meu corpo. Descia pelas costas, pela barriga e assustada, abri os olhos para entender o que era aquilo.

Reparei uma mancha preta que descia pela minha perna e logo pousava no chão, quando notei que em volta dos meus pés estava rodeada deles. Meus cabelos que deveriam estar lá no alto agora estavam ali, se preparando para sumir pelo ralo.

Nem me dei conta que estava gritando, chamando pela minha mãe e as lágrimas se misturavam às gotas do banho. Ela entrou no banheiro muito apavorada e abriu o box. Não precisei falar nada, pois a cena explicava tudo. Ela me tirou dali e me envolveu numa toalha macia.

Sentei na cama e logo o choque passou. Eu sabia que iria acontecer, estava esperando por isso, não entendi porque tive aquela reação. Hoje, com o cenário mais claro, compreendo perfeitamente.

Quando os cabelos foram secando e ganharam mais volume, disfarçou o buraco que havia do lado esquerdo. Pensei em desistir de sair, olhei para a roupa nova, cobri o rosto com um pouco de maquiagem e joguei o topete para o lado oposto. Estava linda!

Chegando no evento falei com todos os meus amigos que nem se deram conta. Abracei o Caio e no seu ouvido contei o que havia acontecido horas antes. Ele me beijou, me olhou com seu rosto terno e disse que no dia seguinte iríamos raspar, assim evitaria passar por aquela situação de novo.

Dancei muito, me diverti, ri junto a todos, mas lá no fundo, em alguns momentos, viajava para dentro de mim. Olhava para todos aqueles rostos conhecidos e, por mais que soubessem que estava doente, não faziam ideia o que eu estava vivendo. Eu estava diferente. Já havia me tornado outra…

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Continuação no próximo post segunda 17.10

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Recomeço

Antes de contar como o cabelo começa a cair e de como foi encarar a segunda sessão de quimioterapia, decidi me aprofundar mais um pouco no tanto de sentimentos que aquelas gotinhas provocam. Pensando com mais calma sobre isso hoje, depois de 4 anos, é impressionante como se arma uma confusão dentro de mim. Imaginem naquela época onde tudo estava a flor da pele.

Nos dias em que os sintomas são mais agudos pensei muitas vezes em abandonar o tratamento, no fundo sabia que não estava falando sério, era uma espécie de delírio. Quando o mal estar ia embora, me sentia boba por ter pensado nisso.

A quimioterapia é uma prova de resistência e como estamos sendo expostos ao limite de nossas forças, física e mentalmente estamos frágeis, ficamos confusos e temos que nos vigiar para não desviar do caminho que nos leva a vencer.

Faço parte de um grupo no Facebook, de mulheres que tem alguma relação com o câncer de mama e ontem decidi perguntar a elas qual é a primeira palavra que vem à mente quando pensam em quimioterapia. Para a minha surpresa a maioria colocou a palavra cura, seguida de outras como, vida, fé, esperança e salvação. Sério! Essas moças, são um exemplo para todos nós, cada dia mais admiro cada uma delas e me incluo, pois não vou ser modesta. Só nós sabemos que guerra é essa e poder, no final de tudo, entender o tratamento com positividade, é vencer duplamente.

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Observei outras palavras como medo, “mal necessário” e outras que faziam menção à queda dos cabelos. Uma colocou um “pqp” e pediu desculpas por ter sido a primeira expressão que teve ao pensar nisso. rs
A palavra “furadas” não foi esquecida já que, caso vocês não saibam, na maioria das vezes, podemos usar somente as veias do braço do lado oposto da cirurgia. Imaginem só, no meu caso, quantas picadas, fazendo 6 meses de tratamento.
Finalmente alguém colocou “turbilhão de sentimentos” e indescritível. Elas tem razão!

E por último deixo duas que me inspiraram e me fizeram pensar muito e vou explicar o porquê.

Deus – acho que associamos o remédio a uma coisa tão boa, que cura e, nesse momento usamos tanto nossa fé que nos aproximamos ainda mais de Deus.

Recomeço – posso dizer que amei esta definição. Sinto que “zerei a vida” e tive a chance de ir para outra etapa. Pude começar de novo e com algumas vantagens, por já ter passado pelos desafios da fase anterior. Agora posso olhar para os obstáculos e calcular se são realmente grandes. Na verdade, na maioria das vezes, começamos a vê-los menores e, ao passar por eles, não nos assustam tanto e a estratégia para vencê-los desta vez está melhor definida.

Espero que possam perceber como essa página de nossa história é profunda. São sensações desencontradas, elementos novos, momentos marcantes. Fomos imersos em um furacão que chegou sem aviso prévio, que devasta, mas também limpa. Reconstruímos tudo e cá estamos, sobrevivemos. 💪🏻

 

recomeco
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