Quimioterapia – Parte II

Enquanto as gotas desciam pensava qual seria a fórmula do remédio que viajava dentro do meu corpo combatendo a doença. Apesar dos momentos de revolta e de todo o desconforto da quimio, aquele líquido é abençoado e cura! Tive sorte de ter acesso ao tratamento.

Quando a garrafinha já estava vazia, fui liberada. Finalmente tinha tomado minha primeira dose e voltando para casa pensei que me sentia muito bem, apesar de já perceber alguns sintomas. Isso eu era capaz de suportar, estava feliz, pois imaginei que seria bem pior do que aquilo.

Finalmente em casa almoçamos todos juntos e lembro, como se fosse hoje, a quantidade absurda de massa que comi. Me empanturrei. Deitei um pouco e senti uma sonolência, normal, pois a enfermeira tinha me dado um remédio para diminuir o enjoo e fora isso estava digerindo almoço.

Em questão de minutos comecei a me sentir fortemente mareada. O cheiro agradável de minha casa de repente passou a ficar insuportável. O meu estômago começou a protestar pela quantidade de comida e não consegui mais me conter, corri para o banheiro e depois disso devo ter vomitado umas 15 vezes naquele dia. O gosto de bílis passou a ser comum na minha boca.

Entre um intervalo e outro conseguia dormir. Era um sono pesado, sem sonhos, uma espécie de esconderijo de todo o mal estar que sentia quando estava acordada. Só queria dormir, pois assim descansava de todas aquelas sensações, mas elas eram fortes e sempre penetravam o meu universo paralelo e me acordavam. Desesperada eu corria para o banheiro e então aquilo virou um ciclo.

Minha mãe ouvia minha movimentação e ficava a postos para me ajudar a segurar o cabelo ou qualquer outra coisa que precisasse. Tomava um banho rápido e escovava os dentes. Confesso que às vezes achava bom vomitar porque em seguida ficava aliviada e sabia que teria algumas horas de trégua.

Os próximos quatro dias foram os piores. Ficava nessa rotina e mal conseguia comer, minha alimentação era feita em pequenas quantidades. Lá pelo quinto dia comecei a sentir alguns sabores e desejos variados. Sabia que estava passando.

O sexto dia chegou, me acordou com bom humor e, por incrível que pareça, os dias anteriores pareciam longe e, quando tratava de lembrar, achava que não tinha sido tão ruim assim. Sentia que estava bem e com fome. Queria levantar, sair, conversar e ver meus amigos. Parecia mágica!

Ligava para a Fran e queria saber se ela tinha passado pelo mesmo. Alguns relatos eram parecidos, mas outros muito diferentes, ela conseguia tomar vitamina de frutas, por exemplo, e tinha mais apetite que eu.

Sei que estava no início de uma batalha, mas já fazia uma contagem regressiva. Faltavam mais 5 doses diluídas em 6 meses. Queria que a próxima chegasse logo, mas ao mesmo tempo sentia uma frio na barriga. Tinha medo daqueles 5 dias de efeitos colaterais, de agonia que pareciam intermináveis, mas precisava continuar para poder vencer!

Era um mundo desconhecido e sabia que muita coisa ainda estava por vir. Meu cabelo começaria a cair dentro de poucos dias e quando sentasse naquelas poltronas novamente, tudo estaria muito diferente. Eu ia conseguir, pois por algum motivo sabia que aquela força que estava tendo não era minha. Deus tinha me emprestado e prometido que não a arrancaria de mim até tudo passar. Isso bastava para seguir em frente.

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Curioso o fato da quimioterapia ser um dos piores momentos do tratamento, mas também o melhor. Estou livre do câncer há 4 anos e a quimio foi minha mais importante aliada, apesar de em alguns momentos não reconhece-la assim. Ela veio como o melhor guerreiro do meu exército acabando com todo e qualquer inimigo. Não media esforços, mesmo causando algumas consequências.

Então, quando penso em VIDA, automaticamente me vem à mente a palavra QUIMIOTERAPIA.

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Quimioterapia – Parte I

Quando o dia da primeira quimio chegou, estava confiante e leve. Na verdade, não fazia ideia do que estava por vir. Enquanto me arrumava me olhei no espelho e percebi uma nota de saudades no meu olhar, pelo meu irmão que havia ido embora no dia anterior. Ele tinha vindo ao Brasil assim que soube do meu diagnóstico e sua volta já estava agendada, quando o médico nos avisou da data do início do tratamento, quase não acreditamos que por um dia ele não estaria.

Chegando no hospital fui para o andar da oncologia, pois a partir daquele momento seria acompanhado por duas especialidades, a onco e a mastologia. Passei por uma consulta breve onde verificaram o resultado do meu exame de sangue e logo me encaminharam para uma sala de espera pequena, onde aguardaria a manipulação do meu remédio pela farmácia. 

Quando vi enfermeiros entrando e carregando algumas garrafas de soro e outras com um líquido vermelho, suspeitei que seria a minha cura. Logo chamaram pelo meu nome e ao entrar no outro cômodo vi uma sala simples, com duas televisões pequenas e encostada nas paredes poltronas pretas, um pouco rasgadas. As enfermeiras eram alegres, solícitas e me receberam muito bem. Sentei ao lado de uma jovem que usava um gorro azul de lã que protegia sua linda careca. Ela, além do câncer, tinha síndrome de Down. 

Enquanto olhava para os meus fios longos e bem pretos, disse: Que cabelo bonito, pena que vai cair todo.

Pensei que tinha sorte por saber “peneirar” as palavras, pois em momento nenhum fiquei triste ou absorvi aquilo, achei engraçado, pois ela falou de um jeito alegre e ingênuo.

Comecei a notar as pessoas que estavam ali e fiquei curiosa pelas suas vidas. Todos éramos diferentes. Jovens, senhores, homens, mulheres, mas em comum compartilhávamos alguns sentimentos. A doença tinha nos escolhido e por algum motivo, naquele instante comecei a ver heróis, guerreiros que estavam ali enfrentando com muita honra esse desafio, quiçá o maior de suas vidas.

Adolescent girl with central line having chemotherapy SOURCE: Based on Cheol-sa Kim sketch

 

O sofá era confortável e enquanto observava tudo a minha volta vi a Fran, a minha amiga do quarto antes da operação, aquela do sorriso largo. Estava um pouco nervosa e notei que chorava. Assim como eu, ela estava aguardando sua primeira dose. Fiquei com vontade de chorar também, pois tudo aquilo não parecia estar fazendo parte da vida real. Em que momento tudo mudou tanto? Quando poderia imaginar que passaríamos por tudo isso?

Queria muito que meus familiares estivessem sentados ao meu lado, mas estavam aguardando do lado de fora. Não podiam entrar. Uma enfermeira sentou na minha frente e me explicou que o remédio cairia em gotas lentas e controladas junto ao soro. Encontrou minha veia facilmente e eu olhando para aquele líquido acima de minha cabeça, pendurado num suporte específico, pude ver as primeiras gotas descendo. Acompanhei a viagem que fazia pela fina mangueira e,  como se estivesse em câmera lenta acompanhei ela se aproximando do meu acesso. Rezei para que me salvasse. 

Assim que o remédio entrou no meu corpo pude sentir seu ardor em minhas veias e o caminho que fazia ao se espalhar dentro de mim. A sensação começou a tomar conta de minha boca e meu nariz ficou dormente. Chamei alguém que me tranquilizou e disse que era normal, mas pediu para ir reportando o que sentia. 

Quando me acostumei com aquele líquido dentro do meu corpo e todas as sensações que me fazia ter, comecei a me distrair com a televisão, afinal o processo duraria em torno de 2 horas.  Notei que a Fran estava lendo uma revista. Em alguns momentos nos olhávamos e sorríamos uma para outra e eu me sentia amparada de saber que estávamos lutando juntas. 


Queria abraça-la, mas não podia sair dali, estávamos posicionadas em cantos opostos. 
Queria aliviar a dor de cada paciente e de seus familiares.
Queria mudar a realidade e avisar a todos que aquilo era apenas um pesadelo e já podiam acordar.
Queria que o câncer jamais existisse!!
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Espírito Olímpico

As Olimpíadas do Rio já acabaram. Agora estamos tendo o privilégio de ver os atletas, ou melhor, os super heróis das Paralimpíadas dando seu show.

Trata-se do maior evento esportivo do mundo, exige uma preparação muito grande por parte da cidade, dos atletas, além de movimentar fornecedores e um verdadeiro exército em prol da operação do evento.

Os Jogos Rio 2016 são grandes, tanto quanto a humanidade.
Ali competem atletas de todas as mais de 200 nacionalidades, de diferentes biotipos e habilidades, que trazem suas diferentes culturas e histórias, disputando modalidades completamente distintas. É o resumo da pluralidade e capacidade do ser humano.

Por tudo isso e com sua cobertura global, as Olimpíadas geram também uma enorme quantidade de histórias marcantes e aprendizados. Escolho uma delas para compartilhar aqui e, caso já a conheçam, convido à recordação.

Trata-se da história de Mohamed Muktar, conhecido como Mo Farah, na disputa da prova de 10000m no atletismo. Ele nasceu na Somália e tem nacionalidade britânica, destaque em longas distâncias, conquistou duas medalhas de ouro em Londres, além de ser campeão mundial algumas vezes.

Mas essa prova foi diferente, especial. Gostaria de ter tido o privilégio de estar no estádio olímpico do Engenhão para acompanhar isso de perto. No meio da prova, Mo tropeçou, se desequilibrou e caiu na pista, quase sendo pisado por seus concorrentes. Ele estava no grupo que liderava a prova naquele momento, mas após a queda foi para uma das últimas colocações. Então se levantou e foi atrás da melhor colocação que pudesse. Apenas para reforçar, nós estamos falando das Olimpíadas com os melhores atletas do mundo e que qualquer deslize é fatal para a vitória, quanto mais uma queda. Além de perder segundos preciosos, a questão psicológica pesa muito nesse momento também, afinal são anos de preparação.

O fato é que Mo Farah conseguiu um feito praticamente, impossível, foi aumentando seu ritmo até se juntar aos que estava ditando o ritmo da prova e venceu. Isso mesmo, ele ganhou seu quarto ouro olímpico! Obviamente uma chegada muito disputada e uma celebração muito emocionante.

Essa prova nos deixa a lição de que a queda muitas vezes pode ser inevitável, mas o modo como nos levantamos e corremos atrás dos objetivos é que fazem a diferença.

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