Sem pena

Desde quando soube que a Linda estava com câncer de mama em nenhum momento a tratei ou até a percebi como “coitada”. Lógico, sei que é uma doença grave, um diagnóstico improvável para a idade, havia falta de histórico de sua família e nem que fosse consequência de algum mau hábito dela (como acontece com outras doenças), entenderia ali a seriedade da situação. Porém a via como uma mulher forte e que suportaria aquilo.

Normalmente sou mais frio e racional, ainda mais para questões mais complexas. Fui sempre muito pragmático em enxergar qual o próximo passo e entendia que assim, além estar junto, poderia contribuir.

Em muitos momentos, de verdade, eu esquecia que a Linda estava passando pelo tratamento. Percebia, sem querer, que isso a fazia também ignorar aquela condição por algum tempo.

Sabe aquela velha frase de que “não sabia que era impossível, foi lá e fez”? Pois é, entendo que isso pode se aplicar de certa forma ao modo como certas situações são encaradas. Caso toda a carga emocional e a esperança ficassem sempre a flor da pele no trato entre nós, provavelmente traria mais tensão para o ambiente.

Fazendo menção ao título, minha relação com ela era sem pena sim, sabendo das limitações, sem exageros, mas não agindo de uma forma totalmente diferente. Isso se refere a quando saíamos, quando a convidava para viajar ou então ir à praia.

Houve uma situação que nos marcou bastante. Meu sobrinho de quase 6 anos (na época com 2 para 3) viu a Linda com peruca e logo depois ela a retirou, mostrando sua cabeça completamente careca. A reação dele foi a melhor possível: ele não titubeou, não perguntou, não se surpreendeu, apenas continuou brincando conosco na cama como se nada tivesse acontecido, pois a tia dele estava ali presente e isso que realmente importava.

Ele agiu sem pena, de uma forma inocente e infantil, no melhor sentido da palavra. Claro que não posso afirmar que eu agia da mesma maneira, mas muitas vezes me sentia como ele, sem estar ali planejando como lidar. Uma criança que estava diante da sua amada e não importava como nem onde, importava estar ali. Do mesmo jeito de antes. Com amor. Sem pena.

Linda e o Riquinho (Henrique), meu sobrinho
Linda e o Riquinho (Henrique), meu sobrinho

 

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2 thoughts on “Sem pena

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